O varejo omnichannel brasileiro já vinha passando por uma profunda transformação nos últimos anos. Integração entre canais, estoque único, entrega rápida e experiência fluida deixaram de ser diferenciais e se tornaram pré-requisitos competitivos. Com a chegada do IBS, Imposto sobre Bens e Serviços, essa transformação ganha uma nova camada de complexidade: a tributária.
A Reforma Tributária para o varejo propõe uma nova lógica nacional de arrecadação, substituindo tributos como ICMS, ISS e PIS/Cofins por um modelo mais uniforme. Na prática, isso altera diretamente a forma como as operações multicanal funcionam, especialmente aquelas que dependem de logística distribuída, vendas interestaduais e fulfillment descentralizado.
O grande desafio passa a ser equilibrar uma logística cada vez mais distribuída com uma cobrança tributária centralizada e orientada ao destino. Para o omnichannel, isso significa repensar regras, sistemas e decisões operacionais que antes eram tomadas quase exclusivamente com base em custo logístico e prazo de entrega.
O principal ponto de ruptura trazido pelo IBS no omnichannel é o critério de tributação no destino. Diferente do modelo atual, no qual o imposto muitas vezes é recolhido na origem da mercadoria, o IBS passa a ser devido ao estado ou município onde o consumo acontece.
Para redes varejistas com múltiplos centros de distribuição espalhados pelo país, isso muda a lógica de planejamento. Antes, a escolha do CD de origem tinha forte impacto tributário local. Com o IBS, o foco deixa de ser onde o produto sai e passa a ser onde ele chega.
No caso dos marketplaces, o impacto é ainda mais sensível. Plataformas que operam com rotas de estoque IBS precisarão garantir que o cálculo do imposto considere corretamente o destino final do pedido, independentemente da origem do estoque. Isso exige maior controle, visibilidade e integração entre sistemas.
Nas vendas interestaduais, o IBS simplifica o conceito, mas exige mais precisão operacional. O recolhimento passa a ser feito integralmente no destino, eliminando disputas e complexidades relacionadas a benefícios fiscais regionais.
Quando um pedido é enviado de um estado para outro, o imposto será calculado com base na alíquota do local de entrega. Isso impacta diretamente a formação de preços, a definição de margens e os repasses internos entre unidades da empresa.
Antes da Reforma, uma venda saindo de São Paulo para Minas Gerais, por exemplo, envolvia ICMS interestadual, diferencial de alíquota e obrigações acessórias específicas. Com o IBS, o cálculo tende a ser mais linear, porém exige sistemas capazes de identificar corretamente o destino e aplicar a regra adequada em tempo real.
Esse novo cenário pode gerar ajustes de preço por região e exigir maior atenção à margem líquida por pedido, já que o custo tributário passa a variar conforme o local do consumidor.
A descentralização de estoque é um dos pilares do omnichannel moderno. Lojas físicas deixaram de ser apenas pontos de venda e passaram a atuar como mini centros de distribuição, viabilizando modelos como ship from store, retirada em loja e entrega no mesmo dia.
Com o IBS, esse modelo ganha uma nova camada estratégica. A escolha da origem do estoque não pode mais considerar apenas proximidade geográfica e prazo de entrega. Agora, critérios tributários também entram na equação.
Dependendo de onde o estoque está localizado e para onde o pedido será entregue, o impacto do IBS pode variar. Isso significa que o OMS precisa ser capaz de simular diferentes cenários de roteamento, considerando custo logístico, prazo, capacidade operacional da loja e carga tributária associada.
A decisão de qual loja ou CD atenderá um pedido passa a ser uma decisão econômica mais complexa, que exige inteligência sistêmica.
O fulfillment omnichannel se torna mais sofisticado com o IBS. Entregar a partir da loja ou a partir de um CD não é mais apenas uma decisão operacional, mas também tributária.
Trocas e devoluções, por exemplo, ganham maior complexidade quando envolvem estoques de diferentes estados. Uma devolução interestadual pode exigir ajustes no recolhimento do IBS, especialmente se o produto retornar para uma origem diferente daquela da venda original.
Processos de picking e packing regionalizados precisam estar alinhados com regras fiscais claras e automatizadas. Caso contrário, o risco de erros de tributação aumenta, impactando tanto a conformidade quanto a experiência do cliente.
Para o consumidor, a expectativa continua sendo a mesma: trocas simples, rápidas e sem burocracia. Cabe ao varejo absorver a complexidade tributária nos bastidores.
O IBS exige um nível mais alto de integração sistêmica. PDV, OMS e ERP precisam operar de forma sincronizada para garantir que o cálculo do imposto esteja correto desde o momento da venda até o faturamento e a entrega.
O cálculo automático do IBS deve considerar a origem do estoque, o destino do pedido, o tipo de operação e as eventuais exceções. Se qualquer sistema estiver desatualizado ou operando de forma isolada, o risco de inconsistências fiscais aumenta significativamente.
Se tratando de PDV e IBS, as engines fiscais integradas ao OMS deixam de ser um diferencial e passam a ser uma necessidade. A sincronização em tempo real entre sistemas é fundamental para evitar erros de tributação, retrabalho e riscos de autuação.
Diante desse novo cenário, algumas estratégias se tornam urgentes para varejistas omnichannel:
Antecipar esses movimentos reduz riscos e evita decisões reativas no futuro.
O omnichannel continua sendo uma vantagem competitiva clara no varejo. Consumidores valorizam conveniência, rapidez e flexibilidade. No entanto, com o IBS, essa estratégia exige uma gestão mais avançada do custo de servir, que agora inclui de forma explícita a carga tributária.
Plataformas tecnológicas capazes de orquestrar logística, estoque, pedidos e tributação em tempo real passam a ter um papel central. Não se trata apenas de vender em múltiplos canais, mas de operar com inteligência e previsibilidade em um ambiente mais regulado.
A Reforma Tributária e a implementação do IBS estão redefinindo o jogo entre varejo omnichannel e tributação. Vendas interestaduais, estoque descentralizado e fulfillment distribuído continuam sendo pilares estratégicos, mas agora precisam ser operados sob uma nova lógica tributária.
Quem ajustar operação, tecnologia e regras de roteamento desde já sai na frente. Com menos riscos, mais eficiência e maior capacidade de escalar o omnichannel de forma sustentável, mesmo em um cenário fiscal mais exigente.
