O varejo brasileiro perdeu R$ 36,5 bilhões em 2024 com quebras, furtos e erros, segundo a Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025. O índice percentual até caiu, de 1,57% para 1,51% do faturamento, mas o valor absoluto cresceu R$ 1,6 bilhão, porque o bolo de vendas do setor também cresceu. O dado mais revelador da pesquisa, porém, não é esse. É a proporção entre perda com causa identificada e perda sem causa identificada, e essa segunda fatia está crescendo de um jeito que deveria preocupar qualquer rede que ainda trata prevenção de perdas como sinônimo de câmera de segurança.
Existe uma diferença técnica importante entre os dois tipos de perda que compõem o resultado final. A perda conhecida é registrada no sistema no momento em que acontece: um produto vencido, uma avaria documentada, uma devolução processada. A perda desconhecida é a diferença entre o estoque que o sistema diz que deveria existir e o estoque físico realmente encontrado em um inventário, sem uma causa registrada que explique essa diferença. Ela pode ser furto interno, furto externo, erro administrativo ou falha de registro, mas no momento em que o inventário é feito, ninguém sabe exatamente qual.
Historicamente, a referência do setor era de 80% de perda conhecida contra 20% de perda desconhecida. Segundo a discussão apresentada no Fórum Abrappe 2025, essa proporção já caiu para perto de 60% contra 40%, o que significa que quase metade do prejuízo do varejo brasileiro hoje acontece sem que a rede saiba, no momento em que a perda ocorre, o que exatamente está causando ela.
A mesma pesquisa detalha a distribuição média das causas: quebras operacionais respondem por 33,28% das perdas, o maior bloco isolado, seguidas por furto externo, com 26,77%, erros de inventário, com 14,47%, furto interno, com 9,98%, e erros administrativos, com 7,96%. Somadas, essas cinco causas já respondem por mais de 92% de todo o prejuízo do setor. É uma distribuição que muda por segmento (farmácias e supermercados, por exemplo, sofrem mais com perecibilidade e vencimento), mas a estrutura geral se repete na maioria das operações de varejo físico.
O ponto que liga essas causas todas é menos óbvio do que parece: nenhuma delas depende de um evento único e isolado. Furto interno acontece ao longo de semanas, erro de inventário se acumula transação após transação, quebra operacional se dilui em pequenas ocorrências diárias. O problema raramente aparece de uma vez, ele se acumula até que um inventário físico, feito periodicamente, revele a diferença total.
A hipótese mais consistente com os dados é a mesma que explica a ruptura de estoque entre canais, tema que já tratamos em um artigo anterior desta série: quanto maior o intervalo entre o momento em que algo acontece no estoque físico e o momento em que o sistema registra essa mudança, maior a chance de o problema se acumular sem rastro. Um inventário físico feito uma vez por mês ou por trimestre funciona como uma fotografia tardia de um filme inteiro que já passou. No momento em que a diferença aparece, semanas ou meses de causas diferentes já se misturaram em um único número final, tornando quase impossível separar o que foi furto do que foi erro de cadastro ou quebra não registrada.
Essa é a razão pela qual crescimento de canais e complexidade operacional tendem a aumentar a fatia de perda desconhecida, não reduzi-la. Mais lojas, mais SKUs e mais movimentação entre canais multiplicam os pontos onde uma pequena diferença pode nascer, ao mesmo tempo em que o intervalo entre a auditoria física e o evento real continua o mesmo, ou até aumenta, porque uma rede maior tem mais unidades para inventariar com a mesma equipe.
A resposta técnica para reduzir a fatia de perda desconhecida não é fazer inventário com mais frequência, isso ajuda, mas tem limite prático de escala. A mudança mais eficaz é reduzir o intervalo entre o evento físico e o registro sistêmico em si, para que divergências apareçam como sinais isolados e rastreáveis, e não como um número agregado meses depois.
Quando cada movimentação de estoque, venda, transferência entre lojas, ajuste de inventário, fica registrada no momento em que acontece, uma divergência que hoje só aparece como perda desconhecida no fechamento trimestral passa a aparecer como um alerta específico, em um produto específico, em uma loja específica, muito mais perto do momento em que a causa real ainda pode ser identificada.
Essa lógica é a mesma que sustenta a resolução de ruptura de estoque entre canais, tratada anteriormente nesta série: um sistema que dá visibilidade granular e contínua do estoque não resolve furto, erro humano ou fraude de fornecedor sozinho, mas transforma um problema que hoje só é visível de forma agregada e tardia em um conjunto de sinais específicos que alguém pode investigar enquanto a causa ainda está fresca.
Ao longo desta série de artigos, um padrão se repete: ruptura de estoque, perda desconhecida, divergência entre canais e decisão logística ineficiente são sintomas diferentes da mesma causa raiz, a falta de visibilidade granular e em tempo real sobre o que realmente acontece em cada loja.
Prevenção de perdas costuma ser tratada como um problema de segurança física, câmera, alarme, guarda. E essas ferramentas continuam relevantes. Mas os números da Abrappe mostram que a fatia do problema que mais cresce é justamente aquela que nenhuma câmera resolve sozinha, porque não tem uma causa única e visível no momento em que acontece. Se a sua rede quer entender onde a perda desconhecida está mais concentrada antes que ela apareça como número agregado no próximo inventário, vale conversar com um especialista da Nexaas sobre como um estoque com visibilidade contínua reduz esse intervalo entre o evento e o registro.
